Três doses antes do coma

Não essa palavra mesclada que salta, mas outra, diferente, com a acidez desfilando por entre os dentes; os moinhos de sua pronúncia acarretando minha cólera, minha indisposição diante dela: e ela não havia ainda sido de mim; era outra que me atirava à parede, me denunciava e – terminantemente – riscava meu corpo com o pó de giz: a palavra seca, que sucedeu a tantas e tantas outras e que.

Penso: mais fácil (ou o seria) se tentássemos atravessar esse caminho com os pés descalços. Dessa forma, grudaríamos nossa excitação, nossa tensão, pré-tensão, atordoamento etc., numa disputa, numa corrida de egos. Eu penso isso, às vezes: a palavra como representação do mugido de uma vaca. Infelizmente, para pensar preciso de palavras que constituem minha inquietação. Despenso, então: rodopios de lágrimas, azeite, óleos, rodopios de mim: despensar—eixo ou algo assim.

Nem penso nem despenso ou dispenso: agora é tudo ou nada; agora é a hora, agora é. E foi. Num segundo, num milésimo de segundo, num nanossegundo ou o que quer que seja. Eu poderia eu acalentar ou quiçá ou.

Eu me formo; me disponho no espaço através de palavras. Eis minha sina: procurar meus signos, minhas contrações, minhas justaposições: marceloadoramar? Embora esteja aqui, é só a palavra que me fortifica: estar.

Estendo-me.

Explico-me sem porquês.

Pequeno poema em consideração aos anjos

É tarde e ela dorme
como se tivesse conquistado o mundo.
Satisfeita,
dorme:
as batalhas em seu rosto, as lutas,
o corpo a corpo, o medo, a vitória
são meros traços em seu sono
de verão.

Alô alô, poetas!

De tempos em tempos, ressurge a discussão sobre literatura e internet. De um lado, um conservadorismo de papelaria, apoiando-se em “durabilidade”; de outro, o relacionamento autor-leitor quase imediato, o ininterrupto contato com outros autores e, ainda, a facilidade em publicar textos (e mais: áudio e vídeo).

Resolvi colocar minha colher neste ponto, porque tenho algumas observações (quase proféticas). Apesar de não apoiar nem um nem outro lado. É claro que todo autor tem a intenção de ver sua obra publicada em livro. É um costume secular; aprendemos a ler com livros, estudamos com apostilas e tudo mais. Ainda não creio que o livro está perto de seu fim. Ao contrário, acredito que todos lêem mais. O que, creio, vai acabar - em formato de livro - é o texto técnico. Bom, se o livro vai continuar, por que, então, blogs?

Os blogs serão cada vez mais utilizados em duas áreas: jornalismo e literatura. Os jornalistas já se adaptaram essa ferramenta e utilizam até como uma alternativa da grande mídia. Os escritores, nem tanto. É fato que quem gosta de literatura também tem uma certa habilidade para silabar “necrolatria”. Talvez por isso exista essa tendência neofóbica. Se não descartarmos a possibilidade de abandonarem os blogs e voltarem para o lápis e papel e confiná-los (os textos) em gavetas, teremos algumas indagações no áspecto literário:

  1. os textos ficarão menores, pois com a escassez de tempo do leitor, não é interessante desenvolver uma história ocupando meio layout do blog. E aí (me) surge uma questão: o tamanho do texto determina sua qualidade? Talvez não, porque tenho dois exemplos que cumprem bem o papel de agilidade e qualidade: Filipe e Patrícia. No entanto, como classificar esses gêneros?
  2. a “durabilidade” de um texto, poema etc., será comprometida? Esse é um ponto que não afeta os blogs jornalísticos, pois informação de ontem ninguém está a fim, principalmente quando temos internet disponível e uma enxurrada de notícias a todo minuto;
  3. o texto têm a mesma atenção dedicada àqueles que não são destinados à internet? Um blog precisa de atualizações e nem sempre um escritor está inspirado, nem sempre dispõe do tempo dedicado para “amadurecer” o texto - que, digamos, esse tempo de amadurecimento não está inscrito no nosso tempo cronológico, é algo mais místico e poético. Manter um blog exige, sim, uma disposição de idéias quase como uma arquitetura de mundo, onde tudo tem de virar poesia, e rápido.

Ou não, né?

Lá vou eu

Eu não sei bem porque Julia tropeçou atrás de mim. Ou melhor, inventou um tropeço atrás de mim e foi dar com as mãos em minhas costas. Como se as mãos dela fossem um ímã e minhas costas a atração. Não doeu: mas senti o aperto das mãos delas em minhas costas, entrando essas garras metálicas, as unhas prateadas em minha camisa. Não doeu, mesmo. Mas não entendi essa atitude de Julia. Esse seu gesto. Justamente tropeçar atrás de mim e jogar o corpo para meu lado. E eu que estava tão distraído abrindo a porta lentamente. Se bem que esse advérbio poderia ser uma razão: ela veio tão mais distraída quanto eu e quando se deparou, estava meu corpo (aliás, minhas costas) parado à sua frente; foi parar e, como a lei newtoniana sempre se apresenta como tropeços e quedas, o corpo (o dela, as mãos) foi levado para frente dando justamente em minhas costas. E aí parou. É certo que ouvi um grito. Penso que ela se assustou; como? se justamente foi ela quem fingiu essa quase-queda. O direito ao susto era meu. De ter unhas em minhas costas e de ter visto Julia, ela, a menos óbvias das pessoas que poderiam tropeçar. Dois sustos e eu não gritei, sequer resmunguei ou coisa parecida. Dois sustos que seriam meus, por direito, e foi Julia quem gritou. Quando a porta foi abrindo já dava para ver o interior do compartimento, vi que Marcelo me olhava. Penso que me olhava: mas pelo seu olhar e sua reprovação, percebi que Julia havia forjado essa queda. E foi aí que descobri que Julia inventou esse tropeço. Não sei bem porque. O fato é que Julia, a mais discreta, resolveu cair justamente em minhas costas, apoiando suas mãos (as unhas metálicas) em minhas costas. Em minhas costas. Não doeu, mas senti que as unhas atravessavam as asas tatuadas em minhas costas. E não pude mais voar, desde então.

Aos ventos

Estamos em março
e a vida não é mais que um poema
vindo da flor que se abre
em tua boca,
como se em ti o fluxo das águas
desenhasse teu corpo.

Na tua voz,
revestida no vento
que levanta palavras
como papéis,
ouço o mar desenvolver-se
atrás dos edifícios e amores
entre árvores e plantas
nos poros de tuas palavras
ouço o mar
em seu ruído de séculos.

De Morfeu e outros Hipnos.

Benedito não viu quando a moça se sentou atrás. Estava compenetrado nos pontos azuis que partiam e retornavam em milésimos de segundos pela janela. Duas horas: a estrada tinha uma composição sufocante depois de algum tempo, como se de dentro dela houvesse uma mão que puxasse e puxasse um tapete de petróleo debaixo das rodas; e mesmo nos buracos, era a falha da mão que se via. Benedito podia ver as veias saltadas desta mão enquanto o pneu confrontava o baque, assustado e decepcionado – também – com a mão, que falhou.

Vazio: como o peito dos heróis decadentes, o banco atrás apenas resgatava o cheiro de alguma passageira da última viagem.Era o que Benedito pensava, mas logo outro solavanco e o pensamento saltou de sua cabeça como um pássaro numa árvore que se debate com o vento, nesta luta que Benedito ficava horas atento à rejeição dos pássaros quanto a árvore. E ia tão longe que seu corpo começava a tremer, tencionando a atenção de seu dono.

- Tá tudo bem? - surgiu uma voz atrás da cabeça de Benedito.

E Benedito pensou que outra vez fosse imaginação – a lápide do corpo. E ela pensou que o rapaz do banco em frente, além de ter tremeliques, era mal-educado; ou surdo. E Benedito outra vez deixou-se cair na poltrona ao lado, esticando as pernas para o corredor. Pensava no passageiro que não veio. Pensava na paciência do motorista ao esperá-lo, inutilmente, na rodoviária. Pensava na impaciência de todos os outros passageiros, que não estavam interessados em atrasos. E pensava no que viria pela frente – não só na chegada, os pés fincados no chão: mas nas horas que teriam que escorrer entre as falhas dos dentes; o ácido do tempo sulcando a boca; enrolando a língua; expulsando os pensamentos. E em dormir até que

- Com licença. – disse um senhor de voz grossa, de cara retraída, que ia em direção ao banheiro, no final do corredor.

Até que chegasse lá; tantas horas (o líquido já escorria pela boca, sentia-o adormecendo a língua). Ao menos, haveria tempo para refletir sobre o que faria nesse lugar em que se metera: as ruas que conheceria, os passeios, as mulheres, as bebidas, os amigos. Ao menos tivesse essa chance de reconciliação com a vida, depois de tantos tragos amargos, depois do tempo – esse companheiro de viagem e de instâncias -, depois de Flora, de Luci. Depois de Flora: a imagem da sapatilha esquecida atrás da estante de livros. De Luci: levou as sapatilhas e alguns livros. E depois: o pó nas estantes, o desinteresse. Desinteresse: olhava as pessoas que iam e vinham naquela rua antiga, pela varanda. Da varanda dava pra ver como eram as mesmas pessoas todos os dias, apesar da cidade ser imensa, as mesmas pessoas que iam e vinham, como o saco de um pugilista. Raras as vezes em que alguém novo resolvia trocar a rua das boutiques pela paralela, aquela rua antiga em que até a poeira impregnava na pele, resmungando a velhice azeda. Raras vezes: natural que ia e ia e ia devagar ela a moça que uma vez por semana a moça que toda sexta-feira a moça que tinha vestidos antigos a moça ruiva a moça de poucas sardas (bonitas) a moça a. Era em Benedito, do lado da sacada, que parecia inflar um astrolábio. Como os antigos: Benedito sentia-se vendo uma constelação, algo inteiramente desconhecido e que só pode ser observado detalhadamente, ainda que de modo precário, através de um astrolábio. E enquanto ela passava que Benedito foi desenhando em seu rosto a constelação que gostaria. E o astrolábio os lábios puros lábios: a constelação de Virgo que se formou nos contornos do rosto dela. Era a constelação de Virgo, certamente: ainda que não conhecesse muito a constelação, exceto por fotos ou gráficos: era tão virgem quanto a flora com suas plantas que crescem sobre a terra macia sem conhecer o mundo; sem conhecer as palavras; sem conhecer as imagens (exceto pelo retrato exânime, ora um pássaro ou um avião, ora o vento). Sem conhecer o feno que Benedito colocava em seus olhos ao ver passar ela. E era em Benedito que crescia essa planta; era em Benedito que ardiam os olhos; era em Benedito que escorria o tempo com seu ácido; era em Benedito, o profano, que a tácita volúpia das coisas adquiriam; eram em Benedito que os anjos imobilizavam e impediam o convite para talvez um café, quem sabe, moro ali em cima, tá vendo?; era em Benedito, o alheio, que apontavam o som dos murmúrios; era em Benedito, o insone, que a noite exercia sua tortuosa e sedutora voragem; era em Benedito que o itinerário traçava seus desvios e passeios enquanto não chegasse em casa aquela moça, imaginariamente chamada Virgo.

Benedito: sexta-feira; arranhando em seus sapatos, a calçada de ladrilhos; cravado em seus olhos, o novo ângulo da constelação, como se fosse um astrônomo que finalmente deixa o laboratório e parte para galáxias; o astrônomo que chega toca em Andrômeda: a insuficiência do gráfico. Houve uma explosão em Virgo, o mundo não presenciou, mas que Benedito sentiu ao vê-la apontar à rua. A boca os olhos as bochechas a boca os lábios a boca as bochechas os peitos a boca os lábios os olhos. A boca: não falou. No entanto, os pés seguiram como que maquinalmente; no entanto os passos logo tomavam o mesmo ritmo (e se Benedito, caso quisesse ou tivesse coragem, ficasse ao lado dela, as pernas estariam metricamente dispostas, para quem olhasse lateralmente); no entanto faltava vigor e a rua acabava; sentia a respiração opressa que chegava a seu rosto como baforadas de fogo; o medo; os maníacos e desajustados que essa cidade produz, como se fosse uma fábrica; o medo; os maníacos e a esquina; as pernas já fora do ritmo; os passos apressados e recendendo a pavor. Os olhos parados de Benedito: a esquina. Os olhos de Benedito giraram antes do corpo para voltar, agora mais calmo e decepcionado, em direção à rua de ladrilhos e quase esquecida; o movimento coletivo das pessoas de sempre.

O susto: a mochila da moça da poltrona de trás que sem querer caiu por cima do corpo de Benedito. O susto: os olhos acordaram antes do corpo e giraram para dentro e para fora da órbita ocular até que o corpo tomasse nota de que algo estranho estava acontecendo na região das pernas. O susto: o “ãhn?” o “quê?” que antecedia a consciência de acordar. O susto: o desdobrar dos segundos que abriam como um livro, uma enciclopédia dos momentos de sonolência. O susto: Benedito, acordado, olhando pavorosamente para ela. Ela: o sorriso, as desculpas, a excepcional habilidade em tirar a mochila em cima do corpo. A calma: o ônibus parado, poucos passageiros sentados, alguns comendo biscoitos. A parada: o ônibus na metade do caminho; o tempo em trégua, a língua em estado normal, não adormecida: o ônibus parado. O lanche: que acordou, não aceita ir ao restaurante comer algo? O susto: o ir e não ir cercando a cabeça de Benedito. O convite: o lanche, a fome provisória, os olhos dela estonteando o espaço. Benedito se lembrou da lua atravessando as brechas da janela de seu apartamento; acordava assustado com a luz lunar que explorava seu rosto, em certo ponto da noite, à procura dos minérios ou das memórias. Benedito acordado: assustado com a claridade. Os sustos, os despertares. Benedito se lembrava ainda das noites insones: esta manifestação do pensamento em ir abrindo as gavetas e compartimentos e desestruturar as estantes da memória e ir resgatando os dias, organizá-los, transcrevê-los, analisá-los, reescrevê-los, tirá-los das estantes, olhá-los, lê-los, concluí-los: os atos que o pensamento exerce em menos de um segundo, como se o tempo parasse de ejetar o ácido dentro da cabeça de Benedito nestes momentos em que o pensamento cumpria sua hábil função de procurar arquivos e notas dos dias e das coisas. Mesmo que o tempo parasse dentro de Benedito, congelasse-o, havia outro que invadia o ônibus e o tempo do intervalo para o lanche; outro tempo que, excluindo Benedito, continuava discorrendo; era este tempo que ela, a do convite, habitava. E no tempo que Benedito imaginava como sua memória trabalhava; ela esperou pacientemente pela resposta.

Nem Luci nem Flora nem Virgo; ela se chamava Valentina e tinha um colar feito de coco que logo o pensamento (e depois a memória) de Benedito engavetou como coqueluche. Ela ainda desfazia-se do riso de ter tropeçado no degrau da escada do restaurante quando Benedito se apresentou. A chuva: a água em queda livre; os vidros. A chuva descia como o suco de laranja que ela engolia com força. O suco de laranja descendo pela garganta, explorando cada pedaço do corpo. O suco de laranja no estômago: a chuva. A conversa; a chuva; a conversa. Os encontros de pensamento; os desencontros nos gestos. A chuva: os olhos azuis dela refletindo o vidro da janela do restaurante. O tempo: o ônibus; os passageiros retornando, satisfeitos e com passos largos; a volta aos aposentos. O ônibus: o tempo, a conversa. A volta.

E iam os dois a mesma cidade e iam os dois fugindo de lembranças, de recordações. E iam os dois recortando frases, imagens. E iam os dois: a cidade que destruiria e substituiria as memórias; os medos; os rancores. As mágoas: a garganta, a voz. A mágoa envolvendo a voz. A voz: recheada de mágoa, como um bolo de ressentimento, disparando contra o que ficou. As vozes: o ônibus acordado conversando; vozes que sobressaíram as conversas. A chuva: a mão que puxava o asfalto agora mais devagar, cuidadosamente movendo o ônibus. As mágoas: roxas mágoas que se infiltravam nos rostos das pessoas. As pessoas: memórias e futuros. Memórias: o passado é o futuro. A histórica cíclica: a chuva embalando a conversa. Benedito, a voz mansa; o torpor contaminando as palavras. As palavras; feitas de poeira, movem-se e se deixam levar pela gravidade. As palavras em Valentina; a contemplação; o consentimento com o sono alheio. O sono: a queda em si. Os olhos de Valentina: o azul-mar-verde-mar que atravessava Benedito em seu reflexo. O sono: o abismo. Os sonhos.

Valentina abriu os olhos, pusilânime. Como se os ambientes, as pessoas, os itinerários e o tempo – principalmente o tempo – tivessem sido feitos de argila e agora despencassem como se um terremoto atingisse toda a área; o pó, a poeira; pedaços de argila pelo chão. Valentina abrindo os olhos: a chuva batendo na janela; os ladrilhos. Valentina sentia-se, sobretudo, protegida – mas imóvel. Proteção: como se os anjos da imobilidade resolvessem segurá-la nos ombros. Valentina, a protegida, abrindo os olhos para o mundo. A memória: conversas, sonos, suco de laranja, ônibus. As gavetas; as estantes; os arquivos: os sonhos. Valentina abriu os olhos; era a luz solar em seu rosto, tocando seu rosto; acariciando-o; como a mão de Benedito faria, caso não tivesse ficado para trás: como o sonho de uma sapatilha dormindo atrás de uma estante.

Antes açúcar

O poema nasce
como o rescaldo de uma fruta
começa a sentir o mundo:

antes devagar, como se
a vida não lutasse contra o tempo
(e não luta)
abrindo o peito para a lâmina,
mas envolto em feno

O poema nasce
como nascem milhões de homens;
cresce
como crescem as folhas incrustadas nos muros;
o poema apodrece
como a vida
quando já agoniza o tempo,
- cercando-o -
como faz o poeta ao libertar o poema
e assim fechar as portas
do mundo

II
Antes não fosse
um poema
- antes fosse
um fluxo de luzes,
móveis,
cinemas,
antes -
mas de dentro de um poema
surge
esse açúcar
dissolvido na boca
que fundimos
em vida.

Lavoura

Na modorra das tardes vadias na fazenda, era num sítio lá do bosque que eu escapava aos olhos apreensivos da família; amainava a febre dos meus pés na terra úmida, cobria meu corpo de folhas, e deitado à sombra, eu dormia na postura quieta de uma planta enferma vergada ao peso de um botão vermelho; não eram duendes aqueles troncos todos ao meu redor, velando em silêncio e cheios de paciência meu sono adolescente? que urnas tão antigas eram essas liberando as vozes protetoras que me chamavam da varanda? de que adiantavam aqueles gritos, se mensageiros mais velozes, mais ativos, montavam melhor o vento, corrompendo os fios da atmosfera? (meu sono, quando maduro, seria colhido com a volúpia religiosa com que se come um pomo). Raduan Nassar, 2003: Lavoura Arcaica

Poética contemporânea

“Para Homero, a realidade se explicava nos termos da mitologia grega como, para Dante, ela se explicava nos termos da teologia católica. O poeta moderno, sem mitologia e sem teologia não habita o Parnaso nem se sente tocado pela graça: caminha no chão de asfalto da cidade e tenta transformar em canto a matéria vulgar do cotidiana. Ao que parece, um mundo povoado de deuses ou iluminado pela teologia é mais propício ao trabalho do poeta do que o nosso, onde pedra é pedra e pau é pau. Mas a verdade é que nem Homero nem Dante, em que pese a sua grandeza, oferecem-nos a poesia capaz de nos reconciliar com o nosso destino de animal humano do século XX. Homero nos emociona ainda, mas como um poeta da velha Grécia pré-helênica, porque assim o lemos, rendidos à sua voz que canta de urna distância de 27 séculos”
Ferreira Gullar, ‘Poesia e realidade contemporânea‘, 1989.