“Para Homero, a realidade se explicava nos termos da mitologia grega como, para Dante, ela se explicava nos termos da teologia católica. O poeta moderno, sem mitologia e sem teologia não habita o Parnaso nem se sente tocado pela graça: caminha no chão de asfalto da cidade e tenta transformar em canto a matéria vulgar do cotidiana. Ao que parece, um mundo povoado de deuses ou iluminado pela teologia é mais propício ao trabalho do poeta do que o nosso, onde pedra é pedra e pau é pau. Mas a verdade é que nem Homero nem Dante, em que pese a sua grandeza, oferecem-nos a poesia capaz de nos reconciliar com o nosso destino de animal humano do século XX. Homero nos emociona ainda, mas como um poeta da velha Grécia pré-helênica, porque assim o lemos, rendidos à sua voz que canta de urna distância de 27 séculos”
Ferreira Gullar, ‘Poesia e realidade contemporânea‘, 1989.
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