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Diz que sim

Um pouco dos dedos, dos pômulos, dos dentes, das gengivas. Um tanto dos sonhos, dos beijos, das brigas, das intrigas:

um tanto quase que perdido entre teu corpo e minha alma, entre o vão das coisas que se partem às quatro horas da tarde nas ventanias, nos vendavais, nos verões: coisas que ficaram perdidas
entre manhãs
dominicais: um tanto quanto que quase enlouqueci
quando vi teu
corpo
recender a este cheiro incomparável que é da infância,
um perfume molhado, quase úmido
que percorria minhas narinas, meus músculos, minhas fortificações: escrevi
teu nome
nos pântanos de minhas veias, em meus rios de vertigem, nas minhas cóleras de amor.

Pequeno poema em consideração aos anjos

É tarde e ela dorme
como se tivesse conquistado o mundo.
Satisfeita,
dorme:
as batalhas em seu rosto, as lutas,
o corpo a corpo, o medo, a vitória
são meros traços em seu sono
de verão.

Aos ventos

Estamos em março
e a vida não é mais que um poema
vindo da flor que se abre
em tua boca,
como se em ti o fluxo das águas
desenhasse teu corpo.

Na tua voz,
revestida no vento
que levanta palavras
como papéis,
ouço o mar desenvolver-se
atrás dos edifícios e amores
entre árvores e plantas
nos poros de tuas palavras
ouço o mar
em seu ruído de séculos.

Antes açúcar

O poema nasce
como o rescaldo de uma fruta
começa a sentir o mundo:

antes devagar, como se
a vida não lutasse contra o tempo
(e não luta)
abrindo o peito para a lâmina,
mas envolto em feno

O poema nasce
como nascem milhões de homens;
cresce
como crescem as folhas incrustadas nos muros;
o poema apodrece
como a vida
quando já agoniza o tempo,
- cercando-o -
como faz o poeta ao libertar o poema
e assim fechar as portas
do mundo

II
Antes não fosse
um poema
- antes fosse
um fluxo de luzes,
móveis,
cinemas,
antes -
mas de dentro de um poema
surge
esse açúcar
dissolvido na boca
que fundimos
em vida.