Antes açúcar

O poema nasce
como o rescaldo de uma fruta
começa a sentir o mundo:

antes devagar, como se
a vida não lutasse contra o tempo
(e não luta)
abrindo o peito para a lâmina,
mas envolto em feno

O poema nasce
como nascem milhões de homens;
cresce
como crescem as folhas incrustadas nos muros;
o poema apodrece
como a vida
quando já agoniza o tempo,
– cercando-o –
como faz o poeta ao libertar o poema
e assim fechar as portas
do mundo

II
Antes não fosse
um poema
– antes fosse
um fluxo de luzes,
móveis,
cinemas,
antes –
mas de dentro de um poema
surge
esse açúcar
dissolvido na boca
que fundimos
em vida.

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3 Responses to “Antes açúcar”


  1. 1 Carla Castilhos fevereiro 13, 2008 às 7:59 pm

    Se gostas do Sabato, deveria tentar ler O Túnel. Achei mais bonito que Sobre Heróis e Tumbas. :]

  2. 2 Srta. Bia fevereiro 19, 2008 às 11:25 am

    Se eu contar que adorei esse você acredita?
    Achei muito bom mesmo, principalmente a terceira estrofe do primeiro ato. E adorei essa frase: “abrindo o peito para a lâmina”. A vida é mesmo assim, não briga com o tempo, já sabe que vai morrer mesmo, o importante é viver.
    Mas olhando agora, a parte I não tem nada a ver com a II…rs. Mas gostei, muito mesmo.
    e sabe, estive por São Paulo e consegui achar “Lavoura Arcaica” num sebo, todo riscado, como se a pessoa tivesse entrado em desespero, toda a lombada do livro riscada com bic azul. E essa parte que você citou é bem no início e oh… o que é esse livro, não é mesmo?
    Bom que voltou 😉

  3. 3 Filipe fevereiro 21, 2008 às 2:06 pm

    Bom saber que o senhor voltou e colhendo letras do pé plantado no quintal dos fundos.


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