De Morfeu e outros Hipnos.

Benedito não viu quando a moça se sentou atrás. Estava compenetrado nos pontos azuis que partiam e retornavam em milésimos de segundos pela janela. Duas horas: a estrada tinha uma composição sufocante depois de algum tempo, como se de dentro dela houvesse uma mão que puxasse e puxasse um tapete de petróleo debaixo das rodas; e mesmo nos buracos, era a falha da mão que se via. Benedito podia ver as veias saltadas desta mão enquanto o pneu confrontava o baque, assustado e decepcionado – também – com a mão, que falhou.

Vazio: como o peito dos heróis decadentes, o banco atrás apenas resgatava o cheiro de alguma passageira da última viagem.Era o que Benedito pensava, mas logo outro solavanco e o pensamento saltou de sua cabeça como um pássaro numa árvore que se debate com o vento, nesta luta que Benedito ficava horas atento à rejeição dos pássaros quanto a árvore. E ia tão longe que seu corpo começava a tremer, tencionando a atenção de seu dono.

– Tá tudo bem? – surgiu uma voz atrás da cabeça de Benedito.

E Benedito pensou que outra vez fosse imaginação – a lápide do corpo. E ela pensou que o rapaz do banco em frente, além de ter tremeliques, era mal-educado; ou surdo. E Benedito outra vez deixou-se cair na poltrona ao lado, esticando as pernas para o corredor. Pensava no passageiro que não veio. Pensava na paciência do motorista ao esperá-lo, inutilmente, na rodoviária. Pensava na impaciência de todos os outros passageiros, que não estavam interessados em atrasos. E pensava no que viria pela frente – não só na chegada, os pés fincados no chão: mas nas horas que teriam que escorrer entre as falhas dos dentes; o ácido do tempo sulcando a boca; enrolando a língua; expulsando os pensamentos. E em dormir até que

– Com licença. – disse um senhor de voz grossa, de cara retraída, que ia em direção ao banheiro, no final do corredor.

Até que chegasse lá; tantas horas (o líquido já escorria pela boca, sentia-o adormecendo a língua). Ao menos, haveria tempo para refletir sobre o que faria nesse lugar em que se metera: as ruas que conheceria, os passeios, as mulheres, as bebidas, os amigos. Ao menos tivesse essa chance de reconciliação com a vida, depois de tantos tragos amargos, depois do tempo – esse companheiro de viagem e de instâncias -, depois de Flora, de Luci. Depois de Flora: a imagem da sapatilha esquecida atrás da estante de livros. De Luci: levou as sapatilhas e alguns livros. E depois: o pó nas estantes, o desinteresse. Desinteresse: olhava as pessoas que iam e vinham naquela rua antiga, pela varanda. Da varanda dava pra ver como eram as mesmas pessoas todos os dias, apesar da cidade ser imensa, as mesmas pessoas que iam e vinham, como o saco de um pugilista. Raras as vezes em que alguém novo resolvia trocar a rua das boutiques pela paralela, aquela rua antiga em que até a poeira impregnava na pele, resmungando a velhice azeda. Raras vezes: natural que ia e ia e ia devagar ela a moça que uma vez por semana a moça que toda sexta-feira a moça que tinha vestidos antigos a moça ruiva a moça de poucas sardas (bonitas) a moça a. Era em Benedito, do lado da sacada, que parecia inflar um astrolábio. Como os antigos: Benedito sentia-se vendo uma constelação, algo inteiramente desconhecido e que só pode ser observado detalhadamente, ainda que de modo precário, através de um astrolábio. E enquanto ela passava que Benedito foi desenhando em seu rosto a constelação que gostaria. E o astrolábio os lábios puros lábios: a constelação de Virgo que se formou nos contornos do rosto dela. Era a constelação de Virgo, certamente: ainda que não conhecesse muito a constelação, exceto por fotos ou gráficos: era tão virgem quanto a flora com suas plantas que crescem sobre a terra macia sem conhecer o mundo; sem conhecer as palavras; sem conhecer as imagens (exceto pelo retrato exânime, ora um pássaro ou um avião, ora o vento). Sem conhecer o feno que Benedito colocava em seus olhos ao ver passar ela. E era em Benedito que crescia essa planta; era em Benedito que ardiam os olhos; era em Benedito que escorria o tempo com seu ácido; era em Benedito, o profano, que a tácita volúpia das coisas adquiriam; eram em Benedito que os anjos imobilizavam e impediam o convite para talvez um café, quem sabe, moro ali em cima, tá vendo?; era em Benedito, o alheio, que apontavam o som dos murmúrios; era em Benedito, o insone, que a noite exercia sua tortuosa e sedutora voragem; era em Benedito que o itinerário traçava seus desvios e passeios enquanto não chegasse em casa aquela moça, imaginariamente chamada Virgo.

Benedito: sexta-feira; arranhando em seus sapatos, a calçada de ladrilhos; cravado em seus olhos, o novo ângulo da constelação, como se fosse um astrônomo que finalmente deixa o laboratório e parte para galáxias; o astrônomo que chega toca em Andrômeda: a insuficiência do gráfico. Houve uma explosão em Virgo, o mundo não presenciou, mas que Benedito sentiu ao vê-la apontar à rua. A boca os olhos as bochechas a boca os lábios a boca as bochechas os peitos a boca os lábios os olhos. A boca: não falou. No entanto, os pés seguiram como que maquinalmente; no entanto os passos logo tomavam o mesmo ritmo (e se Benedito, caso quisesse ou tivesse coragem, ficasse ao lado dela, as pernas estariam metricamente dispostas, para quem olhasse lateralmente); no entanto faltava vigor e a rua acabava; sentia a respiração opressa que chegava a seu rosto como baforadas de fogo; o medo; os maníacos e desajustados que essa cidade produz, como se fosse uma fábrica; o medo; os maníacos e a esquina; as pernas já fora do ritmo; os passos apressados e recendendo a pavor. Os olhos parados de Benedito: a esquina. Os olhos de Benedito giraram antes do corpo para voltar, agora mais calmo e decepcionado, em direção à rua de ladrilhos e quase esquecida; o movimento coletivo das pessoas de sempre.

O susto: a mochila da moça da poltrona de trás que sem querer caiu por cima do corpo de Benedito. O susto: os olhos acordaram antes do corpo e giraram para dentro e para fora da órbita ocular até que o corpo tomasse nota de que algo estranho estava acontecendo na região das pernas. O susto: o “ãhn?” o “quê?” que antecedia a consciência de acordar. O susto: o desdobrar dos segundos que abriam como um livro, uma enciclopédia dos momentos de sonolência. O susto: Benedito, acordado, olhando pavorosamente para ela. Ela: o sorriso, as desculpas, a excepcional habilidade em tirar a mochila em cima do corpo. A calma: o ônibus parado, poucos passageiros sentados, alguns comendo biscoitos. A parada: o ônibus na metade do caminho; o tempo em trégua, a língua em estado normal, não adormecida: o ônibus parado. O lanche: que acordou, não aceita ir ao restaurante comer algo? O susto: o ir e não ir cercando a cabeça de Benedito. O convite: o lanche, a fome provisória, os olhos dela estonteando o espaço. Benedito se lembrou da lua atravessando as brechas da janela de seu apartamento; acordava assustado com a luz lunar que explorava seu rosto, em certo ponto da noite, à procura dos minérios ou das memórias. Benedito acordado: assustado com a claridade. Os sustos, os despertares. Benedito se lembrava ainda das noites insones: esta manifestação do pensamento em ir abrindo as gavetas e compartimentos e desestruturar as estantes da memória e ir resgatando os dias, organizá-los, transcrevê-los, analisá-los, reescrevê-los, tirá-los das estantes, olhá-los, lê-los, concluí-los: os atos que o pensamento exerce em menos de um segundo, como se o tempo parasse de ejetar o ácido dentro da cabeça de Benedito nestes momentos em que o pensamento cumpria sua hábil função de procurar arquivos e notas dos dias e das coisas. Mesmo que o tempo parasse dentro de Benedito, congelasse-o, havia outro que invadia o ônibus e o tempo do intervalo para o lanche; outro tempo que, excluindo Benedito, continuava discorrendo; era este tempo que ela, a do convite, habitava. E no tempo que Benedito imaginava como sua memória trabalhava; ela esperou pacientemente pela resposta.

Nem Luci nem Flora nem Virgo; ela se chamava Valentina e tinha um colar feito de coco que logo o pensamento (e depois a memória) de Benedito engavetou como coqueluche. Ela ainda desfazia-se do riso de ter tropeçado no degrau da escada do restaurante quando Benedito se apresentou. A chuva: a água em queda livre; os vidros. A chuva descia como o suco de laranja que ela engolia com força. O suco de laranja descendo pela garganta, explorando cada pedaço do corpo. O suco de laranja no estômago: a chuva. A conversa; a chuva; a conversa. Os encontros de pensamento; os desencontros nos gestos. A chuva: os olhos azuis dela refletindo o vidro da janela do restaurante. O tempo: o ônibus; os passageiros retornando, satisfeitos e com passos largos; a volta aos aposentos. O ônibus: o tempo, a conversa. A volta.

E iam os dois a mesma cidade e iam os dois fugindo de lembranças, de recordações. E iam os dois recortando frases, imagens. E iam os dois: a cidade que destruiria e substituiria as memórias; os medos; os rancores. As mágoas: a garganta, a voz. A mágoa envolvendo a voz. A voz: recheada de mágoa, como um bolo de ressentimento, disparando contra o que ficou. As vozes: o ônibus acordado conversando; vozes que sobressaíram as conversas. A chuva: a mão que puxava o asfalto agora mais devagar, cuidadosamente movendo o ônibus. As mágoas: roxas mágoas que se infiltravam nos rostos das pessoas. As pessoas: memórias e futuros. Memórias: o passado é o futuro. A histórica cíclica: a chuva embalando a conversa. Benedito, a voz mansa; o torpor contaminando as palavras. As palavras; feitas de poeira, movem-se e se deixam levar pela gravidade. As palavras em Valentina; a contemplação; o consentimento com o sono alheio. O sono: a queda em si. Os olhos de Valentina: o azul-mar-verde-mar que atravessava Benedito em seu reflexo. O sono: o abismo. Os sonhos.

Valentina abriu os olhos, pusilânime. Como se os ambientes, as pessoas, os itinerários e o tempo – principalmente o tempo – tivessem sido feitos de argila e agora despencassem como se um terremoto atingisse toda a área; o pó, a poeira; pedaços de argila pelo chão. Valentina abrindo os olhos: a chuva batendo na janela; os ladrilhos. Valentina sentia-se, sobretudo, protegida – mas imóvel. Proteção: como se os anjos da imobilidade resolvessem segurá-la nos ombros. Valentina, a protegida, abrindo os olhos para o mundo. A memória: conversas, sonos, suco de laranja, ônibus. As gavetas; as estantes; os arquivos: os sonhos. Valentina abriu os olhos; era a luz solar em seu rosto, tocando seu rosto; acariciando-o; como a mão de Benedito faria, caso não tivesse ficado para trás: como o sonho de uma sapatilha dormindo atrás de uma estante.

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2 Responses to “De Morfeu e outros Hipnos.”


  1. 1 Filipe fevereiro 26, 2008 às 1:34 am

    Há um encanto ludibriante nos sonhos. Em suas idas e vindas, sempre há algo de real que confunde o olhar. No mais, daria um ótimo curta-metragem esse texto.

  2. 2 Patricia março 27, 2008 às 7:02 pm

    Caceta.
    Muito bom, camarada, muito bom!


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