Arquivo para março \22\UTC 2008

Lá vou eu

Eu não sei bem porque Julia tropeçou atrás de mim. Ou melhor, inventou um tropeço atrás de mim e foi dar com as mãos em minhas costas. Como se as mãos dela fossem um ímã e minhas costas a atração. Não doeu: mas senti o aperto das mãos delas em minhas costas, entrando essas garras metálicas, as unhas prateadas em minha camisa. Não doeu, mesmo. Mas não entendi essa atitude de Julia. Esse seu gesto. Justamente tropeçar atrás de mim e jogar o corpo para meu lado. E eu que estava tão distraído abrindo a porta lentamente. Se bem que esse advérbio poderia ser uma razão: ela veio tão mais distraída quanto eu e quando se deparou, estava meu corpo (aliás, minhas costas) parado à sua frente; foi parar e, como a lei newtoniana sempre se apresenta como tropeços e quedas, o corpo (o dela, as mãos) foi levado para frente dando justamente em minhas costas. E aí parou. É certo que ouvi um grito. Penso que ela se assustou; como? se justamente foi ela quem fingiu essa quase-queda. O direito ao susto era meu. De ter unhas em minhas costas e de ter visto Julia, ela, a menos óbvias das pessoas que poderiam tropeçar. Dois sustos e eu não gritei, sequer resmunguei ou coisa parecida. Dois sustos que seriam meus, por direito, e foi Julia quem gritou. Quando a porta foi abrindo já dava para ver o interior do compartimento, vi que Marcelo me olhava. Penso que me olhava: mas pelo seu olhar e sua reprovação, percebi que Julia havia forjado essa queda. E foi aí que descobri que Julia inventou esse tropeço. Não sei bem porque. O fato é que Julia, a mais discreta, resolveu cair justamente em minhas costas, apoiando suas mãos (as unhas metálicas) em minhas costas. Em minhas costas. Não doeu, mas senti que as unhas atravessavam as asas tatuadas em minhas costas. E não pude mais voar, desde então.

Aos ventos

Estamos em março
e a vida não é mais que um poema
vindo da flor que se abre
em tua boca,
como se em ti o fluxo das águas
desenhasse teu corpo.

Na tua voz,
revestida no vento
que levanta palavras
como papéis,
ouço o mar desenvolver-se
atrás dos edifícios e amores
entre árvores e plantas
nos poros de tuas palavras
ouço o mar
em seu ruído de séculos.


Burguesia

Híbrido espanto: poemas, contos, comentários e de vez em quando ciências sociais.

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