Arquivo para maio \03\UTC 2008

Três doses antes do coma

Não essa palavra mesclada que salta, mas outra, diferente, com a acidez desfilando por entre os dentes; os moinhos de sua pronúncia acarretando minha cólera, minha indisposição diante dela: e ela não havia ainda sido de mim; era outra que me atirava à parede, me denunciava e – terminantemente – riscava meu corpo com o pó de giz: a palavra seca, que sucedeu a tantas e tantas outras e que.

Penso: mais fácil (ou o seria) se tentássemos atravessar esse caminho com os pés descalços. Dessa forma, grudaríamos nossa excitação, nossa tensão, pré-tensão, atordoamento etc., numa disputa, numa corrida de egos. Eu penso isso, às vezes: a palavra como representação do mugido de uma vaca. Infelizmente, para pensar preciso de palavras que constituem minha inquietação. Despenso, então: rodopios de lágrimas, azeite, óleos, rodopios de mim: despensar—eixo ou algo assim.

Nem penso nem despenso ou dispenso: agora é tudo ou nada; agora é a hora, agora é. E foi. Num segundo, num milésimo de segundo, num nanossegundo ou o que quer que seja. Eu poderia eu acalentar ou quiçá ou.

Eu me formo; me disponho no espaço através de palavras. Eis minha sina: procurar meus signos, minhas contrações, minhas justaposições: marceloadoramar? Embora esteja aqui, é só a palavra que me fortifica: estar.

Estendo-me.

Explico-me sem porquês.


Burguesia

Híbrido espanto: poemas, contos, comentários e de vez em quando ciências sociais.

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