Arquivo de abril \30\UTC 2010

Ofício: cerzir cinzas.

Nessas manhãs de outono,
misturada à gritaria da chuva lá fora,
ouço a tua chegada: teus passos encharcados
de silêncio.

Danço com as palavras, deito-as em meu corpo e brinco e rio e sou vários: sou momentâneo como o ar, lástima de não ser vento, temporal, tempo: avanço e recuo meus pêndulos. Fico a rodopiar nesses verbetes, acaricio a estrutura maleável deste corpo, busco um compêndio de palavras gastas, roídas pelas transformações. Não sou vários, menti: sou um, sem armas e sem escudos, sou um. E tropeço em mim.

Uma manhã com Caeiro

Despertam os pássaros em meu olhar: acordo. Há copos, talheres, xícaras de café, tudo desorganizado sobre a pia. Há desordem no meu tempo: não o vivo, como um cão ou um inseto, também não o vivo (tempo, tempo, tempo) em horas, minutos. Meu tempo se desfaz, novelo de linha, pote de açúcar, erva-doce.

Preparo um café e tu choves: ouço teus passos largos lentos loucos aguando o tempo.

Um livro sobre a mesa

Não há motivo para te importunar a meio da noite,
como não há leite no frigorífico, nem um limite
traçado para a solidão doméstica.

Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece
antes de ser dito e tu queres dormir descansada. Tens
direito a um subsídio de paz.

Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te
importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas
de manhã cedo.

Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o
o direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa
evidência me matar agora.

E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:
porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:
sabes que horas são?

Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda
mais comprida, com a insónia, com as palavras
a despegarem-se dos pesadelos.

(José Luis Peixoto)

Sobre portos e partir

A primeira vez em que parti chovia. Por três meses, choveu em minha aldeia: egocentrismo achar que os portos já me rejeitavam, as estradas fechadas, os rios de minha aldeia altos como se tocassem o céu. Acostumei-me a não voltar, a não ter os pés fincados, as mãos entrelaçadas em convenções: acossado em mim, fiquei.

É difícil voltar: olhar aquele quarto, aquelas cômodas, roupas, cama, livros. Já não são o mesmo, o tempo os corroeu, como a mim, e agiu sobre eles com tamanha voracidade, destruindo o fio que nos ligava, um fio tão tênue, tão tênue que hoje já se duvida que um dia existiu.

(Horóscopo para os que estão em) Outono #2

Os que são regidos por Outono formam orquestra
no silêncio. Têm postura amarela por tanto carregarem
o peso das decepções. Pesam neles o amor, este tão belo amor,
porque o amor é o primeiro a sentir frio com ventos outonais.

Os que são regidos por Outono
são dissindentes das leis: fazem-na a fogo, constituem novas
no vento. Comemoram sempre com vinho.

Às vezes se desesperam, esses de Outono,
mas estão destinados a esperar. Para todo o sempre
e dizem, aos ventos, aos mares, dizem porque só lhes restam dizer:
o amor nasceu sob as vestes outonais, rasgando papéis de seda,
libertando os fracos, acudindo os loucos, mobiliando a casa:
sempre esperam
com vinho e pouca luz.

Outono #1

Há outono em mim e sinto frio. Acordo: começo a me mover pela cama, resvalando nos cobertores, como se buscasse nela um outro mundo: é pequena, mal cabe meu corpo. É tão pequena que infinitamente se desdobra, alcaçando proporções inimagináveis, pedaços de eternidade, liquidez.

Eu carrego terremotos nos bolsos. Tenho nas mãos o peso das estações, o barulho da cidade, os rios de minha aldeia. Tenho nas mãos versos de Pessoa, uns avessos de mim.

E hoje sou outono. Amanhã, outros.

A caminho de casa

Comecei a repetir teu nome de repente. Penso que foi um processo tão natural que não reparei que primeiro me vieram as letras embaraçadas, depois as sílabas e então teu nome cresceu dentro de mim, a começar pelos meus pés, como se tivessem penetrado em minha pele em algum lugar que pisei, algum chão maciço e cuidadoso, ladrilhado, e nesse chão as letras dispersas vieram ao meu corpo, tomando-me como um hospedeiro desta dor e desta ternura.

Foi assim que conheci os anjos, também: vieram primeiro pelos pés, alçando vôo menores, tímidos, dentro de mim, até que num desses vôo encontraram palavras feitas. Encontraram teu nome: engoliram-no, teu nome avesso, e hoje o gritam, tocam teu nome, te tocam.

E inexisto na minha incompreensão: já esqueço que me habito, que tu me habitas e que só os anjos vivem em mim. E eu já não me pertenço.


Burguesia

Híbrido espanto: poemas, contos, comentários e de vez em quando ciências sociais.

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