Em todo torpor

Eu fiquei tão tanto tempo escorado nestas palavras, nestes influxos do tempo, que quase perdi a voz: estava rouco como se tivesse bebido a noite anterior. E sei – sabemos – que há tempos não bebo, não destilo minha angústia no vinho, não vejo brilhar em meus olhos, já noite alta, uma felicidade comprada em copos. Sei, sabemos: precisava escrever e me sentia tão asfixiado com esse tempo nublado, me sentia dentro de um trem a vapor.

Ia segurando um presente enquanto descia a rua: era tão estúpido segurá-lo, fazia frio e descia a rua em direção a minha casa, e meus olhos já encharcavam e meus sapatos molhados e minha camisa aberta e meu sono úmido e minhas veias abertas e meu coração a cavalgar os dias.

Precisava escrever, precisava: eram torpes as minhas palavras, arcaicas e já não falava minha língua – eu era, por assim dizer, uma flor, um lírio, algo que pudesse suportar a chuva, o sol, os dias. Eu havia me transformado em algo que pudessse, por fim, suportar a vida.

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2 Responses to “Em todo torpor”


  1. 1 Daniela Borali abril 5, 2010 às 5:03 pm

    Há momentos em que a vida se torna tão cruel… Intolerável mesmo! Só tolero isto tudo porque posso mergulhar profundamente atrás do pensamento de gente que me traz a sensação de estar viva…
    Então leio Clarice, García Márquez, Goethe… Leio você!

  2. 2 Daniela Borali abril 6, 2010 às 6:14 pm

    (…) a palavra como representação do mugido de uma vaca. Infelizmente, para pensar preciso de palavras que constituem minha inquietação.
    Eu me formo; me disponho no espaço através de palavras. Eis minha sina: procurar meus signos, minhas contrações, minhas justaposições: marceloadoramar? Embora esteja aqui, é só a palavra que me fortifica: estar.
    Estendo-me.
    Explico-me sem porquês.

    (marceloadoramar em Três doses antes do coma)

    Felizmente para mim você traduz suas inquietações e pensamentos em forma de palavras, assim te sinto para poder me sentir e através de ti ao mesmo tempo me fortifico porque você está e me desnudo conseguindo ir além…

    Não aceito me explicar, porque quero mais que isso, minha ânsia se concentra numa louca e mórbida vontade de sempre me confessar, seja de forma objetiva, subjetiva, indireta, direta, com medo, de forma suicida… Nunca vou saber simplesmente porque não sou um ser que se possa compreender, definir e traduzir… Digo isto com propriedade de quem se conhece a ponto de não saber nada. Mas uma coisa é fato, quando digo que gosto, gosto muito! Quando me coloco, arrisco tudo e nunca erro! Sou prepotente, me garanto, acredito demais e tenho muitos medos.
    Medo.Falta de fé. Descontentamento e inquietação.
    Por isso vivo do outro lado da plataforma de uma estação desconhecida com muita gente esquisita como eu. ‘OU’ seja, totalmente sem rumo e sem esperança de encontrar-me com o salvador para tirar-me de toda esta bagunça que é a minha vida!
    Um beijo quente neste dia frio e chuvoso.


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