Sobre portos e partir

A primeira vez em que parti chovia. Por três meses, choveu em minha aldeia: egocentrismo achar que os portos já me rejeitavam, as estradas fechadas, os rios de minha aldeia altos como se tocassem o céu. Acostumei-me a não voltar, a não ter os pés fincados, as mãos entrelaçadas em convenções: acossado em mim, fiquei.

É difícil voltar: olhar aquele quarto, aquelas cômodas, roupas, cama, livros. Já não são o mesmo, o tempo os corroeu, como a mim, e agiu sobre eles com tamanha voracidade, destruindo o fio que nos ligava, um fio tão tênue, tão tênue que hoje já se duvida que um dia existiu.

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2 Responses to “Sobre portos e partir”


  1. 1 Daniela Borali abril 14, 2010 às 5:52 pm

    Nós tendemos a acreditar que aquilo de que nos recordamos realmente aconteceu e não pomos em causa e somos, em grande medida, aquilo de que nos lembramos. E a verdade é que muitas coisas de que nos lembramos na realidade não aconteceram ou não aconteceram exatamente assim. Portanto, até certo ponto, nós próprios somos uma ficção, uma mentira.

    (José Eduardo Agualusa)

    Grande Abraço!
    Dani

  2. 2 b abril 17, 2010 às 7:59 pm

    Fio enrolado como mínimo novelo em ti.
    Como um talismã…


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Híbrido espanto: poemas, contos, comentários e de vez em quando ciências sociais.

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