Arquivo de maio \28\UTC 2010

Compreenda quê.

Num tempo em que minhas mãos não colhiam pássaros, aprendi a voar. Pela falta: hoje esses pássaros me carregam, suportam o peso de meu corpo e de minhas culpas, velam meu silêncio atroz, resgatam o mar (longe mar, mar além) em minhas lembranças e bicam meu corpo, minhas roupas, meus sapatos para me fazer crer que ainda estou vivo. Que resisto, que sou, existência remota de mim.

É difícil compreender os dias chuvosos sem Chopin a ensurdecer os ouvidos: meu corpo treme involuntariamente. Sinto meus músculos contorcerem as manhãs, arrancando-lhes a aurora febril e remetendo ao azul.

O dia deu chuvoso.
A
manhã, contudo, esteve bastante azul.

Protesto, aos berros, por silêncio.
Por si.

Amora aroma ar

Acordo com o infinito rondando meu quarto, respirando o ar de minha casa, acalentando os passos dos vizinhos, roubando de mim o que não tenho o que devo aos outros: esperança. Acordo com a esperança estilhaçada, deitada ao chão e só acordo porque ouço o tilintar desse não-corpo translúcido a se debater como uma ave, um cristalzinho de água, uma maçã, uma massa com a qual dou forma aos dias.

Começo a colecionar rumos.

“Das não-notícias”, de Sevv

“(…) então compreende-se que a massa corrosiva das distribuições se remetem também a mim: não compreendam, por favor, nada tenho de lúcido ou qualquer banalidade lógica para mostrar, elucidar um teorema, detalhá-lo às mínimas considerações. Ao contrário, falamos palavrões aos montes, usamos a mesma louça suja para as novas refeições, os mesmos copos, os mesmos talheres; eclodimos em nossos dias, colecionamos angústias, fúrias, bebemos muito, embriagamo-nos com vinho, tédio e ocupamos um tempo incomensurável à poesia; não nos lavamos há séculos e séculos e tencionamos nossas sujeiras como sinal de saúde; arraigamos nossos princípios aos outros, devolvemos – aos bofetões – ao mundo nossa indignação displicente.

Amanhecemos, despertamos e cantamos.”

Milimetragem: urbana (revisited)

Um homem caminha: dois passos a frente haverá um buraco no asfalto, tropeçará nos ângulos de um motor, reciclará três passos líricos e terá, por fim, encontrado uma esfera luminosa e no entanto transversal: arrancará de seus pés os pregos, retirará de seu paletó uma folha de papel, do bolso extrairá – como um mineiro, um minerador – um lápis quebradiço e escreverá, entre tantas e tantas outras frases, que “o mundo tem lá seu quinhão, sua espécie de quimera acústica na qual os loucos, os pernósticos, as rainhas de reinos algum, os trapaceiros, os trapalhões, os esfarrapados, aqueles movidos a combustão passional poderão dar vazão à voz, retumbar o nó da garganta e, finalmente, aquecerem-se nos cursos da linguagem”. Sob um temporal de aço e estilhaços, caminha: uma faixa de pedestres e o homem pensa – três passos depois não detém pensamento, voa como avião ou pássaro, corre como automóvel ou cavalo: não pensa, agrupa sentimentos e os invoca à razão, involuntariamente, ou quase-razão, pois que também há alicerces num surrealismo mental, dadaísmo de idéias, incubação de vivência: não pensa, o homem, caminha como quem caminha para a morte, seguro de si e de sua execução. Caminha apenas. Pensará que passado é futuro, configurações de um rio, meandros de ideários, barco à deriva, remos quebrados, colete salva-vidas: uma faixa de pedestre há muito o que dizer, sintaxe, forma, conteúdo, silogismo, exotismo, arcabouço de uma realidade inconstante e que, urbanamente, entre moinhos de vento e lacunas de leis, se altera e se formula nos riachos desses passos, nas memórias das pessoas que se encontram numa fração de segundos até explodirem no esquecimento do que não foi conhecido (se quiserem, meus caros, imagem portanto quantas vidas cabem numa faixa de pedestres, pedestress, urbanis). Não há parágrafo para a morte: situa-se no limiar, biombo do que se oculta mas espreita(-nos) como escolas literárias ou movimento de idéias do século XV, arremessa-se entre duas ou três palavras e uma onomatopéia será o bastante para que não mais, nunca mais, esse rosto se mostre num movimento cotidiano e brutal como atravessar; não ouse morrer num dia de sol, o calor há de consumir o corpo até extirpar de vossas mentes a experiência vital, acarretará em grandes perdas, surgirão outros nomes iguais ao vosso, seguirão novas tendências na moda, nos bastidores da notícia ainda esconderão um fato, não me ouçam, por favor, estou à beira da loucura e escrevi três cartas direcionadas ao cônsul da Birmânia em favor dos budistas, protestei beijos e abraços, argüi com vontade, excitei-me, assinei petições e hoje vivo só, debaixo de um viaduto acorrentado a um laço de fita verde que uma meninazinha me deixou como lembrança. Tudo o que poderia ter sido e que não foi, li esse verso no rosto de uma ruiva que passou apressada com pastas e dinheiro na mão (confesso, vi rútilas cédulas de ouro em pó) e levantei bandeiras e dancei e bebi e morri afogado numa lagoa mas ninguém noticiou. Na falta de notícia, ressuscitei no primeiro dia já com a ressaca dessa cachaça barata e mal paga com moedas de zinco. Não vivi o meu quinhão, mas vos deixo a minha face, o meu pedaço de terra, a minha inquisição: amém se (possível) amem-se.

Milimetragem: urbana

Caminha. Entre seus passos arrebentam a leveza de estar caminhando, flutua sobre o asfalto: pés ritmados. Luzes: avenida azul como o mar – que está distante, distante -, desatento aos automóveis e aos feixes luminosos: verdes, amarelos, vermelhos. Semáforo de vidro e sinfonia urbana: caminha. Não pensa: dói. Anda de sapatos, mas raramente sente-se livre das amarras de estar caminhando.

Atravessa a avenida, indiferente aos rumores da cidade: atravessa a avenida do mesmo modo como arranca do peito um nódulo: um intento ao tentar.

Um sol para as linhas

Fico com essas palavras envoltas em meu manto de canto: os silêncios são compostos líquidos, corroem o tempo com sua estrutura de aço e linho, sacodem o pó da terra, retiram de mim o que há de estranho. Cântico e silêncio: escrevo com vestes de quem partiu, de quem se foi, mas que está a espreitar um tempo.

Não mistifico a vida, não há o que se fazer, nem mesmo o tango argentino seria agradável. Escuto o que há para escutar: vazio. Recolho, então, meus papéis (nos quais o tempo se insere, sinuoso) e arranco e arranho e arrisco dizer: tempo-matéria, coisa opaca, estranhamento de dias. Faço de tudo para não fazer e como um barco a velas, um barco à deriva, me sinto porto em pátria desconhecida.

Desconexos desencantos em minha volúpia. E canto e digo e sou: arquivista de negação.


Burguesia

Híbrido espanto: poemas, contos, comentários e de vez em quando ciências sociais.

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