Milimetragem: urbana (revisited)

Um homem caminha: dois passos a frente haverá um buraco no asfalto, tropeçará nos ângulos de um motor, reciclará três passos líricos e terá, por fim, encontrado uma esfera luminosa e no entanto transversal: arrancará de seus pés os pregos, retirará de seu paletó uma folha de papel, do bolso extrairá – como um mineiro, um minerador – um lápis quebradiço e escreverá, entre tantas e tantas outras frases, que “o mundo tem lá seu quinhão, sua espécie de quimera acústica na qual os loucos, os pernósticos, as rainhas de reinos algum, os trapaceiros, os trapalhões, os esfarrapados, aqueles movidos a combustão passional poderão dar vazão à voz, retumbar o nó da garganta e, finalmente, aquecerem-se nos cursos da linguagem”. Sob um temporal de aço e estilhaços, caminha: uma faixa de pedestres e o homem pensa – três passos depois não detém pensamento, voa como avião ou pássaro, corre como automóvel ou cavalo: não pensa, agrupa sentimentos e os invoca à razão, involuntariamente, ou quase-razão, pois que também há alicerces num surrealismo mental, dadaísmo de idéias, incubação de vivência: não pensa, o homem, caminha como quem caminha para a morte, seguro de si e de sua execução. Caminha apenas. Pensará que passado é futuro, configurações de um rio, meandros de ideários, barco à deriva, remos quebrados, colete salva-vidas: uma faixa de pedestre há muito o que dizer, sintaxe, forma, conteúdo, silogismo, exotismo, arcabouço de uma realidade inconstante e que, urbanamente, entre moinhos de vento e lacunas de leis, se altera e se formula nos riachos desses passos, nas memórias das pessoas que se encontram numa fração de segundos até explodirem no esquecimento do que não foi conhecido (se quiserem, meus caros, imagem portanto quantas vidas cabem numa faixa de pedestres, pedestress, urbanis). Não há parágrafo para a morte: situa-se no limiar, biombo do que se oculta mas espreita(-nos) como escolas literárias ou movimento de idéias do século XV, arremessa-se entre duas ou três palavras e uma onomatopéia será o bastante para que não mais, nunca mais, esse rosto se mostre num movimento cotidiano e brutal como atravessar; não ouse morrer num dia de sol, o calor há de consumir o corpo até extirpar de vossas mentes a experiência vital, acarretará em grandes perdas, surgirão outros nomes iguais ao vosso, seguirão novas tendências na moda, nos bastidores da notícia ainda esconderão um fato, não me ouçam, por favor, estou à beira da loucura e escrevi três cartas direcionadas ao cônsul da Birmânia em favor dos budistas, protestei beijos e abraços, argüi com vontade, excitei-me, assinei petições e hoje vivo só, debaixo de um viaduto acorrentado a um laço de fita verde que uma meninazinha me deixou como lembrança. Tudo o que poderia ter sido e que não foi, li esse verso no rosto de uma ruiva que passou apressada com pastas e dinheiro na mão (confesso, vi rútilas cédulas de ouro em pó) e levantei bandeiras e dancei e bebi e morri afogado numa lagoa mas ninguém noticiou. Na falta de notícia, ressuscitei no primeiro dia já com a ressaca dessa cachaça barata e mal paga com moedas de zinco. Não vivi o meu quinhão, mas vos deixo a minha face, o meu pedaço de terra, a minha inquisição: amém se (possível) amem-se.

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1 Response to “Milimetragem: urbana (revisited)”


  1. 1 Talita maio 20, 2010 às 6:34 am

    “Ao ler as retas sufocantes de Rômulo Quiroga – porque de fato elas não sonham, o reconheço em um ponto final de mim, ou na última listra da faixa, beirando o meio-fio – mas também, me estimulo a reinventar uma nova forma de mundo com urgência: as cores alaranjadas do crepúsculo, nascem agora, pink-azulado; os gestos deixam de ser apenas fragmentos de vida para se tornarem punhais, como as gotas das ondas que escorrem na pedra moldando-a ao longo do tempo; o ar perde aquele gosto semi-amargo que amarra língua, para tornar-se compreensão daquele olhar impensante e assim, inventar doçuras; brincar com estridências; me desfazer da espera; passear pelas ruínas;
    aceitar; alimentar o gato (caso ele retorne);amarrar toda parte de mim em mim(deixar sobrar algum desvão); ter paciência com as formigas;aceitar as breves invasões;rir do meu desespero
    me salvar; não abraçar o que não cabe; listar meus medos, para pegá-los entre as mãos;ouvir mais vezes essa música; confessar a solidão; gritar; escrever; me dedicar ao absurdo de mim; fazer do próprio sopro meu alento; atenuar.
    Mas existem outros tantos momentos, então eu fujo da cidade e da vida cheia de coisas, me enlouqueço ao olhar a parede vazia. Embora, gosto deste leste que desconheço, porque é ali que me torno menos legível, me olhar de longe e desvanecer no meu não pertencimento. É esse ato de olhar para baixo, reconher-se, encostar o olhar na terra, afundar-me contra as superfícies. Escavar fósseis de tempo, cavar memórias orgânicas. Manter o tom das palavras sempre mais perto do chão. E talvez seja por isso que é verdade, quando digo que vou. Vou, assim como o olhar que carrega toda a nossa espera e caminhar pelo inesperado é também o convívio com a frustração. Gosto das aberturas, dos possíveis, dos vazios. Mas tenho também muito medo deles. E é por isso que os visito. Ir sempre na direção do próprio medo, dar o passo no próprio abismo é tornar a queda só mais um pedaço do caminho. Escolher a queda é princípio do salto. Aqui, longe de mim, do conforto conhecido, cultivo novos amparos. Porque o amparo é o que nos abriga, mas também o que nos impede,e não há nada mais difícil de percorrer que uma liberdade desprovida de contornos.
    Toda viagem é um pouco uma ilusão. O caminho é muito mais uma espera que um percurso. E então penso que faço essa viagem porque não preciso dela. Porque ela não é mais um combinado de acasos e sucessões. Eu caminhando por lugares que meu corpo não possui, me levando comigo junto ao enorme inesperado de mim. E a entrega? Ah! A entrega, meu amor, não é aumentar-se no outro, mas diminuir-se em si. Dar-se em seu estado mínimo, mais cru e essencial. Não é o olhar atento e constante, ansioso por reter o que vê; mas o olhar de quem contempla e se afasta, tornando o visível inevitável, como uma cicatriz aprofundada que se inscreve nas retinas.”


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