Compreenda quê.

Num tempo em que minhas mãos não colhiam pássaros, aprendi a voar. Pela falta: hoje esses pássaros me carregam, suportam o peso de meu corpo e de minhas culpas, velam meu silêncio atroz, resgatam o mar (longe mar, mar além) em minhas lembranças e bicam meu corpo, minhas roupas, meus sapatos para me fazer crer que ainda estou vivo. Que resisto, que sou, existência remota de mim.

É difícil compreender os dias chuvosos sem Chopin a ensurdecer os ouvidos: meu corpo treme involuntariamente. Sinto meus músculos contorcerem as manhãs, arrancando-lhes a aurora febril e remetendo ao azul.

O dia deu chuvoso.
A
manhã, contudo, esteve bastante azul.

Protesto, aos berros, por silêncio.
Por si.

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3 Responses to “Compreenda quê.”


  1. 2 b maio 30, 2010 às 2:35 am

    Proteste e deixe que façam a festa os pássaros.
    Gastam os bicos e a voz.
    Mas você mantém-se sob a ausência de Chopin indo ao sol ou fazendo da chuva sinfonia se esta se apresenta.
    Ausência e silêncio tornam-no renovável.

  2. 3 Marcos junho 1, 2010 às 5:38 pm

    “Existência remota de mim”.

    Sempre bom, meu caro. E uma parceria é sempre bem-vinda. É só dar um grito.


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