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12 de outubro

As primeiras noites me vieram como um líquido ou lâmina: afogaram meus pensamentos, esfaqueando meus sonhos como se tivéssemos realmente ousado sair desta órbita e pairar noutro universo que não este. Depois me vieram os olhos arregaçados pelas mangas, atraídos por uma sinfonia de músculos e lábios e acabamos contorcendo demais os ruídos que abafavam esse quarto. Pensei que houvesse obtido alguma gratificação, um lodo razoável deste mundo ao qual me rendo e me surpreendo ao conhecer-me convencido de que nada será uma esfera ou um tanque de guerra. Saíremos aos montes, como grãos de alguma colheita ou mesmo família reduzida a pó: teremos nossos pés atados, como se estatalmente nos soubéssemos gratos. No fundo, somos ingratos com o que temos e com o que nos acolhe: temos sempre a mão um impulso e nossa força é pífia como se Deus ou os deuses ou orixás ou pouco importa a força divina ou talvez não tão divina assim aproximasse nossas idéias dos cotovelos e secretamente nos dissesse aos ouvido: sabes de ti o tanto quanto de mim.

E nos joga além. No entanto, fica o fim a principar.

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Alô alô, poetas!

De tempos em tempos, ressurge a discussão sobre literatura e internet. De um lado, um conservadorismo de papelaria, apoiando-se em “durabilidade”; de outro, o relacionamento autor-leitor quase imediato, o ininterrupto contato com outros autores e, ainda, a facilidade em publicar textos (e mais: áudio e vídeo).

Resolvi colocar minha colher neste ponto, porque tenho algumas observações (quase proféticas). Apesar de não apoiar nem um nem outro lado. É claro que todo autor tem a intenção de ver sua obra publicada em livro. É um costume secular; aprendemos a ler com livros, estudamos com apostilas e tudo mais. Ainda não creio que o livro está perto de seu fim. Ao contrário, acredito que todos lêem mais. O que, creio, vai acabar – em formato de livro – é o texto técnico. Bom, se o livro vai continuar, por que, então, blogs?

Os blogs serão cada vez mais utilizados em duas áreas: jornalismo e literatura. Os jornalistas já se adaptaram essa ferramenta e utilizam até como uma alternativa da grande mídia. Os escritores, nem tanto. É fato que quem gosta de literatura também tem uma certa habilidade para silabar “necrolatria”. Talvez por isso exista essa tendência neofóbica. Se não descartarmos a possibilidade de abandonarem os blogs e voltarem para o lápis e papel e confiná-los (os textos) em gavetas, teremos algumas indagações no áspecto literário:

  1. os textos ficarão menores, pois com a escassez de tempo do leitor, não é interessante desenvolver uma história ocupando meio layout do blog. E aí (me) surge uma questão: o tamanho do texto determina sua qualidade? Talvez não, porque tenho dois exemplos que cumprem bem o papel de agilidade e qualidade: Filipe e Patrícia. No entanto, como classificar esses gêneros?
  2. a “durabilidade” de um texto, poema etc., será comprometida? Esse é um ponto que não afeta os blogs jornalísticos, pois informação de ontem ninguém está a fim, principalmente quando temos internet disponível e uma enxurrada de notícias a todo minuto;
  3. o texto têm a mesma atenção dedicada àqueles que não são destinados à internet? Um blog precisa de atualizações e nem sempre um escritor está inspirado, nem sempre dispõe do tempo dedicado para “amadurecer” o texto – que, digamos, esse tempo de amadurecimento não está inscrito no nosso tempo cronológico, é algo mais místico e poético. Manter um blog exige, sim, uma disposição de idéias quase como uma arquitetura de mundo, onde tudo tem de virar poesia, e rápido.

Ou não, né?


Burguesia

Híbrido espanto: poemas, contos, comentários e de vez em quando ciências sociais.

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