Archive for the 'poemas' Category

Aquilo que se aprende com Thiago de Mello

Não cresce o homem
da mesma maneira como cresce uma flor: arraigado
em seu peito, destoa a liberdade
– essa palavra canora -,
e canta, atravessa seu dia de fúria ou dor.

Alegre, canta: pássaro ao chão,
pleno de si ou do outro, abriga a manhã
nos olhos, desatina a amar como criança, como menino
que se apega ao ar: de aço, faz sua casa.
Na atmosfera abstrata, o amor é erigido.

Redige no homem sua aflição, seu temor: corta-lhes as asas
e lhe ensina, verdadeiramente, a voar.

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A conta, por favor.

Lutaste, escreveste, desempenhaste um papel. Foste o último homem
a levantar a língua contra o mundo, ternura seca.

Foste e já não existes: ficaste para nós como história
um vento a nos estancar os lábios: já não temos direito à voz, calamo-nos
porque o dia agita as vozes, detém as esperanças, atravessa
teu corpo (agora frio) e o transfigura de silêncio.

Um silêncio anunciado de palavras.

(Esboço de um poema em junho)

Não carregues o vento nas costas nem mesmo
o tenhas como um raio, um trovão qualquer a te abastecer mínima
manhã: onde quer que tu te encontres, haverá luz
e um pouco de sol – esse frágil, tão frágil, sol que nos banha
agora como pomos de uma fruta; há liquidez, há raridade.

Não há palavra segregada ou sagrada ou sangrenta: há palavras
que nos bailam como doces donzelas, dulcíssima manhã, pintando um quadro
já exposto ou esquecido: uma tela para nos comover, um caminho.

Ofício: cerzir cinzas.

Nessas manhãs de outono,
misturada à gritaria da chuva lá fora,
ouço a tua chegada: teus passos encharcados
de silêncio.

Danço com as palavras, deito-as em meu corpo e brinco e rio e sou vários: sou momentâneo como o ar, lástima de não ser vento, temporal, tempo: avanço e recuo meus pêndulos. Fico a rodopiar nesses verbetes, acaricio a estrutura maleável deste corpo, busco um compêndio de palavras gastas, roídas pelas transformações. Não sou vários, menti: sou um, sem armas e sem escudos, sou um. E tropeço em mim.

Um livro sobre a mesa

Não há motivo para te importunar a meio da noite,
como não há leite no frigorífico, nem um limite
traçado para a solidão doméstica.

Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece
antes de ser dito e tu queres dormir descansada. Tens
direito a um subsídio de paz.

Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te
importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas
de manhã cedo.

Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o
o direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa
evidência me matar agora.

E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:
porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:
sabes que horas são?

Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda
mais comprida, com a insónia, com as palavras
a despegarem-se dos pesadelos.

(José Luis Peixoto)

(Horóscopo para os que estão em) Outono #2

Os que são regidos por Outono formam orquestra
no silêncio. Têm postura amarela por tanto carregarem
o peso das decepções. Pesam neles o amor, este tão belo amor,
porque o amor é o primeiro a sentir frio com ventos outonais.

Os que são regidos por Outono
são dissindentes das leis: fazem-na a fogo, constituem novas
no vento. Comemoram sempre com vinho.

Às vezes se desesperam, esses de Outono,
mas estão destinados a esperar. Para todo o sempre
e dizem, aos ventos, aos mares, dizem porque só lhes restam dizer:
o amor nasceu sob as vestes outonais, rasgando papéis de seda,
libertando os fracos, acudindo os loucos, mobiliando a casa:
sempre esperam
com vinho e pouca luz.

Diz que sim

Um pouco dos dedos, dos pômulos, dos dentes, das gengivas. Um tanto dos sonhos, dos beijos, das brigas, das intrigas:

um tanto quase que perdido entre teu corpo e minha alma, entre o vão das coisas que se partem às quatro horas da tarde nas ventanias, nos vendavais, nos verões: coisas que ficaram perdidas
entre manhãs
dominicais: um tanto quanto que quase enlouqueci
quando vi teu
corpo
recender a este cheiro incomparável que é da infância,
um perfume molhado, quase úmido
que percorria minhas narinas, meus músculos, minhas fortificações: escrevi
teu nome
nos pântanos de minhas veias, em meus rios de vertigem, nas minhas cóleras de amor.


Burguesia

Híbrido espanto: poemas, contos, comentários e de vez em quando ciências sociais.

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