Archive for the 'trechos' Category

“Das não-notícias”, de Sevv

“(…) então compreende-se que a massa corrosiva das distribuições se remetem também a mim: não compreendam, por favor, nada tenho de lúcido ou qualquer banalidade lógica para mostrar, elucidar um teorema, detalhá-lo às mínimas considerações. Ao contrário, falamos palavrões aos montes, usamos a mesma louça suja para as novas refeições, os mesmos copos, os mesmos talheres; eclodimos em nossos dias, colecionamos angústias, fúrias, bebemos muito, embriagamo-nos com vinho, tédio e ocupamos um tempo incomensurável à poesia; não nos lavamos há séculos e séculos e tencionamos nossas sujeiras como sinal de saúde; arraigamos nossos princípios aos outros, devolvemos – aos bofetões – ao mundo nossa indignação displicente.

Amanhecemos, despertamos e cantamos.”

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Lavoura

Na modorra das tardes vadias na fazenda, era num sítio lá do bosque que eu escapava aos olhos apreensivos da família; amainava a febre dos meus pés na terra úmida, cobria meu corpo de folhas, e deitado à sombra, eu dormia na postura quieta de uma planta enferma vergada ao peso de um botão vermelho; não eram duendes aqueles troncos todos ao meu redor, velando em silêncio e cheios de paciência meu sono adolescente? que urnas tão antigas eram essas liberando as vozes protetoras que me chamavam da varanda? de que adiantavam aqueles gritos, se mensageiros mais velozes, mais ativos, montavam melhor o vento, corrompendo os fios da atmosfera? (meu sono, quando maduro, seria colhido com a volúpia religiosa com que se come um pomo). Raduan Nassar, 2003: Lavoura Arcaica

Poética contemporânea

“Para Homero, a realidade se explicava nos termos da mitologia grega como, para Dante, ela se explicava nos termos da teologia católica. O poeta moderno, sem mitologia e sem teologia não habita o Parnaso nem se sente tocado pela graça: caminha no chão de asfalto da cidade e tenta transformar em canto a matéria vulgar do cotidiana. Ao que parece, um mundo povoado de deuses ou iluminado pela teologia é mais propício ao trabalho do poeta do que o nosso, onde pedra é pedra e pau é pau. Mas a verdade é que nem Homero nem Dante, em que pese a sua grandeza, oferecem-nos a poesia capaz de nos reconciliar com o nosso destino de animal humano do século XX. Homero nos emociona ainda, mas como um poeta da velha Grécia pré-helênica, porque assim o lemos, rendidos à sua voz que canta de urna distância de 27 séculos”
Ferreira Gullar, ‘Poesia e realidade contemporânea‘, 1989.


Burguesia

Híbrido espanto: poemas, contos, comentários e de vez em quando ciências sociais.

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